GERALDO PEREIRA, 100 ANOS DEPOIS, FAZ VIVER...

Ainda que seu nome seja pouco ou quase nada lembrado pelo imaginário popular, as composições de Geraldo Pereira (1918-1955), considerado o pai do samba sincopado e influência fundamental para a bossa nova, seguem vivas até hoje no repertório de alguns dos maiores gênios da música brasileira em atividade. De Gilberto Gil à Elza Soares, de Paulinho da Viola à Gal Costa e, recentemente no show em que Maria Bethânia e Zeca Pagodinho inauguraram juntos, está lá “Falsa Baiana”, o mais conhecido samba de Geraldo Pereira, cujo centenário é celebrado este ano sem tantas pompas como poderia — e deveria — ser. 

Mineiro de Juiz de Fora, nascido em 1918, Geraldo Pereira morou na zona rural da cidade da Zona da Mata e chegou a trabalhar como candeeiro de boi, antes de se mudar, ainda adolescente, para o Rio de Janeiro. Na capital carioca, estabeleceu residência no Morro de Santo Antônio, próximo à Mangueira, e viveu intensamente a boemia entre os anos 1940 e 1950. 

Mesmo assinando mais de 80 sambas e sendo gravado por Moacir da Silva, Aracy de Almeida, Cyro Monteiro e, mais tarde, ninguém menos do que João Gilberto, ídolo declarado do compositor juiz-forano, Geraldo Pereira passou a curta vida se dividindo entre as inspirações do samba e o trabalho formal de motorista de caminhão da limpeza urbana do Rio de Janeiro.

Ele morreu aos 37 anos, em 8 de maio de 1955, após passar três meses internado no hospital devido a uma hemorragia intestinal. Pouco antes das complicações de saúde, o compositor se envolveu em uma briga de bar com Madame Satã, famosa drag queen da noite carioca, o que alimentou por muitos anos a lenda de que Geraldo Pereira tinha sido morto por causa de um soco de Madame Satã. 

O único parente vivo do compositor em sua cidade natal é Carmindo Pereira, mais conhecido como Toco, de 76 anos, primo de primeiro grau de Geraldo Pereira e sambista conhecido em Juiz de Fora, atrelado ao partido alto. Ele lembra que, antes mesmo de o primo arriscar os primeiros acordes ao violão, havia uma maneira “diferente e meio maluca” de ele produzir a ginga do samba, muito influenciado pelo ritmo do calango.

“Enquanto esteve em Juiz de Fora, o Geraldo era metido com as coisas da roça. Então, ele tinha muito contato com os calangueiros, muito porque o pai dele também era calangueiro. Ouvia muito as músicas, participava dos encontros e, certamente, ele levou isso para o Rio de Janeiro, conseguindo criar o que eles chamam de samba sincopado, com certeza a partir do calango, da sua infância”, diz Carmindo.

Sem estudo formal — apenas o primário incompleto —  Geraldo Pereira foi autodidata no violão, ainda que tenha tido algumas aulas com o mestre Cartola, durante o período em que começava a se envolver com o samba, chegando a integrar o grupo Unidos da Mangueira, que nenhuma relação tem com a grande escola carnavalesca, mas que se apresentava no morro da verde e rosa. Ainda na juventude, também frequentava a casa de Alfredo Português, padrasto de Nelson Sargento, que costumava reunir a turma para ouvir música e, claro, produzir samba de alta qualidade. 

De suas músicas, ficaram um vasto arsenal de temáticas, todas representadas pela ginga inerente à síncope de seu samba, como a crítica à economia de Getúlio Vargas em “Ministério da Economia” (Geraldo Pereira e Arnaldo Passos, 1951), o olhar irônico para a própria pobreza em “Acertei no Milhar” (Geraldo Pereira e Wilson Batista, 1940), gravada por Moreira da Silva; a reprovação da repressão policial expressa em “Polícia no Morro”, outra parceira com Arnaldo Passos, também de 1951, e gravada por Cristina Buarque; e os sucessos que muita gente desconhece sua autoria, como “Sem Compromisso” (1947), marcada na voz de Chico Buarque. 

O maior intérprete de Geraldo Pereira, contudo, foi Cyro Monteiro, o primeiro a gravar a famosa “Falsa Baiana” (1944), que ganhou inúmeras releituras, desde as vozes clássicas de Gilberto Gil e Gal Costa, até os contemporâneos Paulinho Moska e Roberta Sá. A versão mais explanada, porém, é a de João Gilberto, gravada em 1973, muito depois da morte do compositor mineiro. Antes, o ícone da bossa nova havia gravado “Bolinha de Papel” (1961), como reconhecimento definitivo da importância de Geraldo Pereira para a fundação e desenvolvimento da bossa nova. 

Ainda que seja passível de muitas interpretações os meandros da criação do samba sincopado de Geraldo Pereira, seu estilo carrega uma unanimidade: ser inevitavelmente contagiante. “Tem gente que diz que o Geraldo tocava de tal jeito ou cantava assim, no que chamamos de síncope, porque ele não tinha uma parte do dedo indicador, perdeu em um acidente de trabalho. Mas, isso é lenda. A obra dele é rica em quebrar e inverter os compassos fracos e fortes, é algo imprevisível durante a música e, por isso mesmo, tem uma carga de originalidade forte para sua época”, diz Regis da Vila, presidente do Instituto Cultural do Samba em Juiz de Fora e pesquisador da obra e da vida de Geraldo Pereira.

 

 

 

Homenagens 

Nascido no mesmo dia em que se celebra o aniversário de Pixinguinha, 23 de abril, e, de tabela, o Dia do Choro, as homenagens a Geraldo Pereira neste ano ainda são tímidas ou, no mínimo, reduzidas a reverências aquém da altura desse gigante do samba. A principal homenagem é a divulgação de 10 podcasts sobre a vida e obra de Geraldo Pereira, produzidos pela Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles (IMS), com comentários e pesquisa de Rodrigo Alzuguir e Pedro Paulo Malta  (os programas podem ser ouvidos neste link: https://goo.gl/yB9vFU ). 

Em disco, A Velha Guarda da Mangueira anunciou que vai gravar um álbum apenas com repertório de sambas sincopados de Geraldo Pereira, que durante algum tempo foi morador do morro. A produção ficará a cargo de Paulão 7 Cordas, mas ainda não tem data definida de lançamento. Também debruçado sobre a gravação de um CD, o pesquisador e músico Rodrigo Alzuguir pretende gravar neste ano os sambas mais lado B de Geraldo Pereira.

Em Belo Horizonte, a data foi celebrada com uma roda de samba no Contemporâneo – Gastrô Show, liderada pelos discípulos Marcelo Roxo, Mauro Zockratto e Alexandre Rezende, com a participação especial da cantora Gisele Couto.

 



Documentário

O jornalista e diretor da Primata Filmes, Luis Henrique Evo, aproveitou a data para divulgar documentário produzido em 2007, como monografia de final de curso de graduação, cujo objetivo era e ainda é divulgar a obra de Geraldo Pereira. Embora não seja um material bem-acabado, o filme é de grande valor histórico e sentimental.

 

Por Lucas Simões

Visto 2141 vezes Última modificação em Quinta, 14 Junho 2018 23:47
Redação

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