NASCE UMA NOVA GERAÇÃO DE SAMBISTAS

Em Belo Horizonte, tiveram gerações e gerações de pessoas compondo, tivemos os seresteiros da Lagoinha e Santa Teresa, tivemos o Clube da Esquina, tivemos Toninho Gerais e mais uma turma que veio vindo com o tempo. Tivemos uma época que o samba era moda na Zona Sul. Casas e mais casas tinham em sua programação grupos que se formavam em profusão. E foi assim, foi desse movimento que nasceu a mais nova geração de compositoras e compositores da cidade.

Sempre estiveram por aí, tocando com a turma, cantando e virava e mexia aparecia alguém novo. O samba perdeu espaço, lugares e público. Mas sempre encontrou acolhida na vida destas duas compositoras e um compositor que conversamos. 

Marina Gomes é mineira de Divinópolis, cantora, instrumentista e compositora e vem desde 2007 soltando sua voz e seus versos pelas rodas de BH. Teve seu disco O Samba É Meu Guia lançado em 2015

Giselle Couto veio de Mariana e desde 2002 tem seu lugar nas rodas de Ouro Preto. Com sua bela voz participa de várias rodas e shows na capital. Lança seu EP em 2017.

Heleno Augusto é quase onipresente, com seu bloco Havayanas Usadas, sua banda Rega Mofe e suas inúmeras participações em rodas, Heleno parece que está em todos os lugares com suas parcerias com Dé Lucas e muito mais.

Com vocês Marina Gomes (MG), Heleno Augusto (HA) e Giselle Couto (GC).

 

Almanaque: Como você começou a compor?

MG: Foi de forma bem despretensiosa, com o incentivo dos meus parceiros. No início não acreditava muito nessas primeiras canções que nasciam, mas com o passar do tempo, tocando-as nas rodas vi que mexiam as pessoas, a partir daí acreditei nesta onda de compor.

São muitos compositores e compositoras que temos como referência, é muita pretensão se dizer compositora sem que tenha certeza que o que vem do seu coração e da sua inspiração podem realmente transmutar a barreira emocional das pessoas. 

Hoje, sinto, principalmente depois do lançamento do meu primeiro disco O Samba é Meu Guia, que posso sim fazer uma música que pessoas irão se identificar, escutar em casa, cantar junto, pedir nos shows, ouvir no churrasco, tirar no violão e fazer essa canção girar.

HA: Fazia paródias e brincadeiras até que a obra do Bezerra da Silva me levou de uma maneira muito forte para o universo do samba. Um dia assistindo um programa do Jorge Kajuru, ele disse para o Marcelinho Carioca que era mais falso que uma nota de 3 reais. Na hora me veio a ideia e fiz minha primeira canção, Nota de 3, imaginando o Bezerra interpretando.

GC:  Comecei a compor registrando num caderno algumas frases soltas e melodias, isso na época da faculdade de Musica em Ouro Preto. Período que essa criatividade esta bastante aflorada. Mas toda criação feita nesse tempo eu guardei, quase escondi, pois não tinha segurança para mostrá-las ou continuar.

 

Almanaque: O que é compor pra vocês? 

MG:  É deixar as ideias aparecerem sem pudor, os temas aparecem de forma despretensiosa, tem canções que nascem porque naquele dia e naquela hora você encontrou um parceiro. Pode ser uma amiga que te contou uma história que não você conhecia para uma melodia brotar na cabeça. Ou ainda uma cerveja no domingo onde alguém pega o violão e os parceiros ao redor vão soltando frases e melodias que se alinhavam dando vida a mais uma canção.

Depois da euforia vem a reflexão, bom momento para rever as notas da melodia, a poesia cantada, as palavras usadas e as inúmeras possibilidades de arranjos. 

HA: Pra mim é expressar um grito da alma, uma cena do cotidiano, eternizar uma história, homenagear alguma coisa ou alguém ou apenas um externar um desejo que às vezes vem numa melodia, numa frase ou em uma imagem qualquer.

GC: Compor pra mim está muito ligada ao meu coração. A inspirações bastante genuínas, somadas a minha bagagem musical de toda uma vida.

Almanaque: Como transformar um sentimento em música?

MG: Para mim tudo isso acontece de forma natural, quando a coisa é feita com verdade não tem como o sentimento não vir atrelado. Compor para mim é mais ou menos trilhar um caminho sem medo e com coragem de expor seu sentimento daquele momento.

HA: Às vezes é imaginar que é um diálogo mesmo e sair escrevendo sem pensar que vai ser uma música e depois vir formatando, em outras é contar a história pra alguém e a interpretação desse alguém ajudar na transformação e mais raramente já vir tudo pronto, letra e melodia, como se fosse uma encomenda ou psicografia. Compor é algo bem mágico.

GC: Ah, essa é a via da minha criação. O sentimento. Pra mim, é bem simples, embora não pareça, Mas vou construindo as melodias, as frases, passeando pelo que sinto no momento, por uma lembrança, por uma imagem....


Almanaque: Compor pra você ou pra fazer sucesso? Pensa nisso? Existe diferença?

MG: Olha, nunca pensei numa música antes de criá-la com o objetivo de fazer sucesso, ou ser mais comercial. Isso pode acontecer sim, caso tenha isso como meta ou quando recebe alguma encomenda.

O sucesso da música está, na minha opinião, na qualidade. Uma melodia que traga boa sensações, uma poesia cuidadosa com o uso das palavras, um arranjo condizente com o tema da música e uma boa execução são fundamentais para o reconhecimento da mesma.

Uma música nova pode estourar vindo de uma voz rouca e de uma harmonia de 6 acordes, não tem receita.

HA: Penso o tempo todo. Claro que existe diferença. Muitas vezes temos a intenção de ter uma grande sacada, um refrão fácil, velhas fórmulas e artimanhas, aproveitar um momento, um contexto pra emplacar uma música. Eu tenho mais capacidade de fazer algo que gosto mas, como não existem regras, essas podem vir a se tornarem um sucesso. Acredito nisso.

GC: Atualmente, componho primeiramente pra mim. Depois me comunico com o outro através dela. E o sucesso, pra mim virá da emoção que essa musica vai causar nas pessoas.

Mas sabemos que esse sucesso passa também por um outro lugar, digamos, mais programado.

Com objetivos de atingir grandes massas, visando ganhar dinheiro, etc.

Eu ainda não consigo compor dessa forma.

Mas pensando em plano de carreira, mercado, é preciso pensar sobre sim.

 

Almanaque: Quais lugares os novos compositores tem pra tocar em BH?

MG: Como experiência recente com o Samba da Criação penso que as casas Contemporâneo, Gastrô Show, A Casa de Cultura e A Casa do Jornalista são espaços que abriram e abrem espaço para os novos compositores. O Samba Rooms Hostel também é um local que abre espaço para o diálogo entre o artista e o público através do projeto Meu Samba é Assim.

Outras casas que acredito que fortalecem a cena autoral local, Purarmonia que é gerido pelo próprio grupo homônimo, o Bar Opção que é um espaço importantíssimo para o samba de Belo Horizonte, muito bem cuidado pelo integrante da Velha Guarda, Ronaldo Coisa Nossa. Os terreiros Quintal do Divina Luz e Bar do Cacá também são de extrema importância para o nosso samba, espaços que recebem, com frequência, artistas que são grandes referências, propondo assim uma troca de experiências entre os grupos de Belo Horizonte com seus ídolos. 

Bares como Clã Espaço e Cultura, O Muringueiro e Dalva Botequim também estão na lista dos espaços que tem a preocupação em cultivar parceria com diversos artistas que trazem suas músicas, suas composições em repertórios onde se passa pelos clássicos do samba e os sambas produzidos pela cena autoral da cidade. 

Tantas outras poderiam se aderir criando assim oportunidade para que os artistas possam estabelecer, ou propor uma nova experiência para o público, que assim tem a oportunidade de entrar em contato com seu trabalho. Todos saem ganhando, artistas, bares, casas e público.

 

HA: É bem escasso. Existe uma fatia enorme do público e dos músicos que só gosta das mesmas músicas, os sucessos. Um movimento iniciado no Quintal do Divina Luz, em 2008, encabeçado pelo Dé Lucas, deu espaço pra muita gente mostrar seu trabalho e foi bem importante. Hoje tem dois projetos com esse viés, o Samba da Criação e O Meu Samba É Assim, ambos liderados pela Marina Gomes, que dão essa oportunidade de mostrar as inéditas.

GC: Atualmente temos projetos, grupos e redutos dedicados a composição.

O próprio Samba da Criação, temos também o Reduto de compositores vários dons, temos o projeto Meu Samba é assim, que acontece mensalmente no Samba Rooms Hostel, e muitos sambistas defendendo suas crias nos seus espaços, dialogando com compositores fora do estado, e muita coisa boa vem por ai.

 

Almanaque: Fala de ser mulher, machismo e sua posição sobre isso no mundo do samba.

MG: Hoje em dia, depois de muita luta das grandes que vieram antes da gente como Dona Ivone Lara, Áurea Martins, Jovelina Pérola Negra e tantas outras temos um trânsito mais facilitado no ambiente do samba. Mas o tempo todo temos que manter o pulso firme para lutar pelos nossos projetos, pela valorização da mulher na comunidade do samba e pelo respeito no tratamento com todas as envolvidas, cantoras, compositoras, passistas, instrumentistas e as mulheres que prestigiam nosso trabalho. 

HA: Como em toda a sociedade, a mulher tem um espaço reduzido no samba, tem pouco espaço pra mostrar suas músicas, falar, cantar, produzir. Poucas artistas tiveram destaque mas a maioria cantava um pouco de tudo e foi se firmando no samba ou tinham um talento extraordinário que se impôs sob o machismo.
É um erro histórica que precisamos corrigir.

GC:  O machismo se revela no samba, da mesma forma que na sociedade. Às vezes, me parece um pouco tendenciosa algumas falas sobre machismo versos samba. Ao meu ver não existe polêmica quanto a isso, é que é mais visível.

Você chega numa roda e é muito maior o número de homens, poucas mulheres cantando ou tocando um instrumento, mais compositores que compositoras, mas isso vem mudando bastante.

A mulher vem se emponderando, buscando conhecimento, se fortalecendo e independentemente de onde ela está inserida, no samba ou na literatura, está havendo transformação.

Respeito a história do samba mas na atualidade e estou atenta para continuar escrevendo o que a mulher realmente representa.

 

Almanaque: Quem mais você gosta da nova turma? 

MG: São muitos parceiros competentes que tenho a honra em dividir essa vivência. Vou citar três pessoas que admiro muito e tenho a oportunidade de conviver. Novos, criativos, extremamente competentes e excelentes compositores: Lucas Fainblat, Giselle Couto e Evandro Mello. Muitos outros compõem esta lista, pessoas que são profissionais extremamente competentes e que fazem parte do meu rol de amigos e admiradores do samba, além de abraçarem a causa que é toda nossa.

HA: Lucas Fainblat é um dos mais criativos, gosto muito. Tem Éderson Melão, Tino Fernandes, Alexandre Rezende, Marina Gomes, é muita gente talentosa. Ultimamente a Aline Calixto também tem feito várias. Tem o pessoal do Reduto de Compositores Vários Dons, formado por Bruno Cupertino, Evandro Mello, Betinho Moreno, Vinícius Mineiro e uma turma bem legal que está no caminho certo. 

GC: Não é fácil falar de quem eu mais gosto, super clichê. Mas eu gosto de muita coisa que está sendo produzida atualmente no samba de BH. Mas se for pra falar de um, eu aponto o Tino Fernandes e o Alexandre Rezende, com o trabalho que eles tem de Samba Rural.

 

Almanaque: O que é ser compositora(or) em BH? 

MG: É poder se expressar, é manter firme no propósito de ser livre e fazer música com verdade, sempre respeitando a tradição do samba. É encontrar com os amigos pra tomar uma cerveja e sair um nova canção, é ir numa roda de samba e conhecer novos compositores e assim poder afirmar que temos uma cena autoral extremamente viva e cheia de riquezas.

HA: É lutar pra implantar uma cultura, ser persistente, sonhador, estar sempre pronto para as oportunidades que aparecerem, sejam de grande ou pequeno alcance.

GC: Ser compositora em BH, é arregaçar as mangas!!! Avante meu samba amado!! Salve o samba mineiro!!

 

Por Rafael Mendonça

Visto 4006 vezes Última modificação em Quinta, 14 Junho 2018 23:48
Redação

A equipe Almanaque é composta por: Jornalistas, compositores e pesquisadores do Samba de Minas Gerais

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