ZÉ DO MONTE

Ago 16 2018 /

29/11/1938 – Belo Horizonte

Na adolescência, Neném ganhou uma motocicleta da mãe: subia e descia as ruas do Bairro Pompéia, região Leste da cidade, dando cavalo-de-pau e tirando “onda de mauricinho”. A brincadeira lhe rendeu muitas broncas da mãe e um samba partido-alto, gravado pelo bamba Bira Favela: “Neném diz que é da Savassi, só vejo neném na Avenida Belém/ não faz isso não, neném…”. A exemplo de Neném, Nonô do Boleiro e Antônio Patu também são ilustres desconhecidos da maioria. Porém, para José Antônio Guimarães, de 69 anos, conhecido nas rodas como Zé do Monte, esses personagens e suas histórias rendem muitos versos.

Morador do Pompéia desde os 8 anos, quando o bairro era dividido entre Novo Horizonte e Parque Jardim, Zé do Monte aprendeu desde cedo a curtir a vida, o samba e o futebol (não necessariamente nessa ordem), sem deixar de lado a profissão de tipógrafo, o que o credencia como um dos últimos grandes malandros do subúrbio da capital, na concepção mais romântica do termo. Seu jeito de levar a vida (ou o contrário?) chamou a atenção do jovem cineasta Pedro Portella, autor do documentário Memórias e improvisos de um tipógrafo partideiro, vencedor do DOCTV 2006/2007. Nas telas, a película foi lançada oficialmente em dezembro do ano passado e, até o fim deste ano, será exibida em canal aberto pelas TVs educativas, incluindo a Rede Minas.

Esse “tipógrafo-partideiro” está mesmo bem na fita: uma equipe da TVE acaba de voltar para o Rio de Janeiro com um material sobre Zé do Monte, que deverá ser exibido em junho, como parte de uma reportagem sobre o Memória Gráfica, projeto social no qual integra como professor de tipografia para adolescentes em situação de risco. Neste ano, ele ainda fará parte de outro documentário Samba da minha serra, que contará a história do samba produzido na cidade, desde 1937, tendo como personagens um time de bambas da velha guarda de Belo Horizonte. “Não esperava esse tipo de reconhecimento agora. Veio rápido e de uma vez só”, admite.

O sambista vem colhendo frutos de uma história talhada desde os 13 anos, quando começou a trabalhar no laboratório de produtos veterinários Hertape, em Santa Efigênia, na região Leste de BH. Foi lá que, cinco anos mais tarde, teve contato com sua primeira experiência gráfica, ao montar rótulos de medicamentos impressos na tipografia da empresa. Com o passar da vida, Zé do Monte

incorporou à profissão, a paixão pelo futebol, fato que lhe rendeu o casamento com Dirce e os cinco filhos. “As meninas iam para a beira do campo ver a gente jogar. Metade do time casou em Santa Efigênia”, brinca.

GALO - Ele jogou bola nos principais campos de várzea da cidade, onde defendeu as cores do Najar, Guanabarino (Santa Efigênia) e Novo Horizonte (Pompéia). Habilidoso e versátil, quando garoto jogava em todas as posições. Chegou a ser chamado para o juvenil do Galo, mas a família preferia vê-lo trabalhando. Pela semelhança com o capitão do Atlético, nos anos de 1940 e 1950, Zé do Monte, o sambista passou a ser apelidado com o nome de um dos maiores ídolos do clube. “Muita gente pensa que fui eu quem joguei no Galo. Até joguei, mas não tanto tempo quanto ele”, esclarece.

Aposentou as chuteiras nos anos de 1970, fase em que passou a se dedicar mais às rodas de samba, regadas a muita cerveja, nos fins de semana no Pompéia. Mais tarde, com os filhos Geraldo, Gerson e Gilmar, montou o grupo Monte Samba. O futebol, porém, nunca abandonou os campos de Zé do Monte. Atleticano roxo, passou a versar tendo como mote os amigos de pelada. Um deles, Antônio Patu, ganhou até música: “Come dibra (sic) a vida inteira, noite, dia sem parar/ Antônio Patu gosta mesmo é de jogar/ toma gaúcha, chapéu, rabo-de-vaca sem parar/ só marcando gol contra, que ele mexe no placar.”

“Ele era metido a jogar bola, entrava em campo todo fantasiado, com faixa na cabeça”, diverte-se o cronista do morro, ao dizer que seus personagens não se aborrecem com as letras, quase sempre em tom de gozação. “Eles gostam, sabem que sou um brincalhão”, emenda. A primeira a entrar na roda foi uma funcionária da gráfica, onde trabalhava, no fim dos anos de 1950. A marchinha Maria solteirona chegou a ser apresentada nos programas de calouros do radialista Aldair Pinto. Mas na hora de gravá-la , o termo “largando brasa”foi censurado e Zé do Monte desistiu de concorrer na final. “Eles achavam que a frase era muito pesada. Mas ali eu senti que havia algo no ar, porque todo mundo gostou”, recorda.

Zé do Monte afirma que tem mais de 30 composições prontas para serem gravadas, mas falta patrocínio para encarar a empreitada. “Minhas músicas são todas assim. Agora, estou querendo passar para um samba mais sério e gravar um disco”, diz. Enquanto isso, mantém uma rotina iniciada há 50 anos, com poucas adaptações: trabalha de segunda a segunda, não bebe em dia de semana, mas quando chega sexta-feira à noite…

O cineasta Pedro Portella está acabando de finalizar a versão ampliada do documentário Memórias e improvisos de um tipógrafo partideiro, o que possibilitará uma maior inserção da obra em festivais no Brasil e no exterior. A versão vencedora do DOCTV 2006/2007 é de 52 minutos e a “oficial” será de cerca de 80 minutos. Nela, serão incluídas passagens que ficaram de fora da anterior, como as filmagens no Mineirão, onde Zé do Monte acompanhou o time do Galo em uma partida da Série B do Campeonato Brasileiro do ano passado. Outra cena é o encontro do sambista com os freqüentadores da Padaria do Braz, no Bairro Pompéia, na região Leste da cidade, cenário do samba Mel grátis, outra divertida história contada pelo partideiro.

“O dono colocou um anúncio oferecendo mel grátis para quem retirasse uma colmeia da padaria. Aí o Rogério Tatu, que não tinha nenhuma habilidade para coisa, tentou fazer o serviço e saiu todo picado pelas abelhas”, conta Zé do Monte, longo emendando: “Mel grátis, pra quem retirar a colméia, dizia o anúncio na padaria do Braz da Pompéia/ muito abelhudo, Rogério Tatu meteu o carão, levou tanta picada, caiu da escada de costa no chão/ chamaram o resgate levaram o Tatu pro João 23, socorrido ele disse não quero saber de mel grátis outra vez…”

Na versão para o DOCTV, outros personagens já haviam sido incluídos, um deles, o percussionista, pandeirista e violonista Nonô do Boleiro. “Fico satisfeito em virar inspiração para os sambas do Zé, que é uma pessoa muito querida aqui no bairro”, afirma. Antônio da Costa Ribeiro vendia os bolos de feijão feitos pelo pai. De passagem pela Pedreira Prado Lopes, ele e sua mulher, Isaura, se envolveram em uma confusão. Aí, entra Zé do Monte que, além de apartar a briga, mandou o samba: “Nonô do Boleiro levou um cassete, nessa madrugada dessa quarta-feira/ chegou invocado falando besteira, encarando todo mundo dentro da pedreira…”

“Desde os meus 12 anos, acompanho as rodas de samba do Zé do Monte aqui no bairro. Inclusive, foi ele quem me apadrinhou”, diz Ronaldo Soares Batista, de 48, mais conhecido como China Show, Rei Momo de Belo Horizonte, em 2001. No documentário, ele lembra o dia em que chamou

o partideiro para uma temporada no Rio de Janeiro, episódio que rendeu os versos: “Tida me emprestou a bolsa/ o Guiegue o calção, a Amarildo a correia, o China entrou com a condução/ fui pro Rio de Janeiro cantei samba de montão…”. “Sou um cronista da minha própria natureza”, admite Zé do Monte.

Outra cena marcante no documentário é o encontro do partideiro com a Velha Guarda da Portela, agremiação de sua preferência. Na capital fluminense, além de cantar na quadra da escola, teve um encontro com outro mestre, Xangô da Mangueira, e juntos cantaram: “Quando vim de Minas, trouxe ouro em pó, quando eu vim…”

Ao comentar a onda de documentários sobre sambistas que vem invadindo as telas – o último é sobre o mangueirense Cartola, que está em cartaz nos cinemas de BH, Pedro Portella garante que sua obra “recorre a outro tipo de abordagem”. “Primeiramente, trabalhei com um artista desconhecido, retratado em vida, com todas as vantagens e desvantagens que isso significa. Mesmo sem ter a abrangência nacional de um Cartola, penso que assim poderíamos mostrar de perto o morro belo-horizontino, para enfatizar como são genuínos e brilhantes aqueles que passam à margem do eixo Rio-São Paulo”. (ZM) Trechos de reportagem do jornalista Zu Moreira para o Diário da Tarde - 30/04/2017

 

 

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