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A FACE MINEIRA DE JOÃO GILBERTO

A FACE MINEIRA DE JOÃO GILBERTO Arquivo EM

A passagem do Pai da Bossa Nova por Diamantina vai virar livro

Em Diamantina: onde João Gilberto buscou refúgio e inspiração, o jornalista Raphael Vidigal reforça com detalhes os laços de João Gilberto, que morreu neste sábado (6/7) no Rio de Janeiro, com Minas Gerais, sobretudo Diamantina, no Alto Jequitinhonha. 

Há cinco anos, em texto para o jornal Hoje em Dia, o colunista Manoel Hygino também abordava a passagem de João pela cidade histórica:

Como o compositor apareceu na terra dos diamantes? A irmã Maria da Conceição Dadainha era casada com um engenheiro civil, Péricles Rocha de Sá, que chefiava obras de uma rodovia na região, a BR-367. Antes, vivera em Diamantina um irmão de João Gilberto, o Jovino, que estudou no colégio Diamantinense, responsável por ensino de primeira qualidade. Mas ainda tocava violão e jogava futebol, pescava, além de integrar o Tiro de Guerra.

Os diamantinenses não conseguiam ver João Gilberto. Ele se enfurnara na casa do cunhado e da irmã, por oito meses. Trancava-se no quarto com o violão e não saía sequer na calçada. Fechava-se horas e mais horas no banheiro, também com o violão. À noite, percorria de meias, para não fazer ruído, os corredores da casa. Depois cantava e tocava baixinho, ao lado do berço de Marta Maria, a sobrinha, no quarto de criança. Para os diamantinenses, era um sujeito esquisito, que passava o dia de pijama tocando violão.

Por RAPHAEL VIDIGAL, Jornal O Tempo

 
Pouco se fala sobre isso, mas quando ainda tentava emplacar a carreira e fora rejeitado no Rio de Janeiro, João Gilberto 'desapareceu' do cenário musical por cerca de dois anos e, dentre os lugares que ele passou na busca de se reinventar, uma cidade histórica mineira acabou se tornando fonte de inspiração.
 
Minas entrou na vida de João Gilberto de maneira mais decisiva quando, em visita à irmã Dadainha, que acabara de dar à luz a primeira filha, ele passou duas temporadas em Diamantina, no Alto Jequitinhonha, entre 1955 e 1957. Foi ali que, de fato, a histórica revolução na música brasileira começou a ser construída pelo baiano de Juazeiro, três anos antes de revelar ao mundo o resultado de suas experimentações musicais.
 
Essa é a tese do livro que o músico, escritor e pesquisador Wander Conceição, 57, prepara há uma década e que pretende lançar no próximo ano. Com dez dos 16 capítulos prontos, a publicação vai sair pela editora Mazza e traz um deles focado na passagem de João por Diamantina, intitulado “A Renovação no Ritmo”. Conceição, no entanto, faz questão de ressaltar que “não se trata de um livro apenas sobre João Gilberto”.
 
“Minha pesquisa é sobre a importância histórica de Diamantina na evolução cultural do país no século XX e, nesse cenário, se inscreve a Bossa Nova”, explica. A ideia surgiu depois que ele leu “Chega de Saudade: A História e as Histórias da Bossa Nova” (1990), de Ruy Castro, e estranhou o fato de não haver menção ao período em que João viveu na cidade que fica a 294 km de Belo Horizonte. 
 
Logo, seu olhar sobre a travessia mineira do intérprete de “Desafinado” é aguçado, tanto que ele entrevistou 40 pessoas que conviveram com João na cidade para chegar à conclusão de que, sem Minas, não haveria Bossa Nova. Os relatos de que o músico passava horas trancado no banheiro para chegar ao som perfeito, em busca da melhor acústica, são confirmados, mas relativizados. “Na verdade, o laboratório dele era o quartinho da casa, foi ali que ele desenvolveu o ritmo e chegou à batida de violão definitiva”, afiança o pesquisador.
 
Presidente e acadêmico mineiros influenciaram 
 
No livro que aborda a presença de João Gilberto em Diamantina, o pesquisador Wander Conceição vai além. Apesar da importância absoluta de João, ele não se atém ao excêntrico violonista para firmar seu entendimento. “A Bossa Nova é fundamentada em quatro elementos: a renovação rítmica, harmônica, melódica e de linguagem. Era um momento de modernização, e tudo isso só acontece porque o presidente do país era o Juscelino Kubitschek, também mineiro de Diamantina”, observa Conceição, em referência àquele que ganhou o apelido de “presidente bossa-nova”. 
 
A convivência do então diplomata Vinicius de Moraes com intelectuais mineiros, na sede do Itamaraty, também teria pesado. Segundo a pesquisa de Conceição, um dos mais próximos do Poetinha foi o filólogo e professor Aires da Mata Machado Filho, outro filho de Diamantina. Produtor e compositor, Bob Tostes aponta a influência do movimento na obra de Milton Nascimento, que lançou, em 1964, a música “Barulho de Trem”, ao lado de Wagner Tiso. “Esse é um sambinha bem típico da Bossa Nova”, diz Tostes.

Nas duas temporadas que João Gilberto passou em Diamantina, a quietude de cidade pacata do interior lhe ofereceu sossego e reclusão, para que investisse na formatação do novo ritmo – fundamental para o remate definitivo dos contornos da Bossa Nova –, num processo contínuo e exaustivo de treinamento obsessivo.
 
O ritmo renovado para o acompanhamento da música popular, criado por João Gilberto, era o preparo glutinoso que faltava para se fundir, de vez, a escrita renovada de Vinicius de Moraes à renovação harmônico-melódica de Tom Jobim. A nova batida do violão oferecia maior liberdade para a criatividade, situação que abriu um leque enorme de possibilidades para Tom Jobim harmonizar as melodias das canções, em conformidade com o espírito renovador daquele momento. 
 
Por que essa renovação rítmica teria que ser desenvolvida exatamente em Diamantina? A resposta para tal pergunta faz parte do conjunto de imponderáveis da História Universal! Trecho de “A Renovação no Ritmo”, de Wander Conceição .
 
VEJA O QUE DISSE PACÍFICO MASCARENHAS, CONTEMPORÂNEO DE JOÃO GILBERTO DURANTE PASSAGEM POR MINAS (AQUI)

 

Ler 149 vezes Última modificação em Domingo, 07 Julho 2019 09:41
Zu Moreira

Jornalista, compositor e pesquisador

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