AFRO-SAMBAS OU AMBOS?

Salve, povo do samba. Agô!

Na coluna de hoje vamos falar do disco Afro-sambas, do Baden e Vinícius. Teria o poetinha, diplomata das letras, cometido um enorme pleonasmo ao criar a expressão afro-sambas? Os mais radicais vão dizer que sim. Na contra capa do LP Vinícius dá uma pista: “Essas antenas que Baden tem ligadas para a Bahia e, em última instância, para a África, permitiram-lhe realizar um novo sincretismo: carioquizar, dentro do espírito samba moderno, o candomblé afro-brasileiro, dando-lhe ao mesmo tempo uma dimensão mais universal”.

Se pegarmos a expressão nua e crua podemos afirmar que ela é sim um enorme pleonasmo, pois é inegável a matriz africana do samba, todo samba é afro. Porém, se levarmos em consideração as palavras e a intenção de Vinícius de Moraes percebemos que ele cunhou o termo afro-sambas para designar esse novo estilo de samba, moderno para sua época (1966). Portanto ambos os dois –  opa! mais um pleonasmo na lista – estão corretos.

Vinícius não inventou a roda ao cantar elementos do candomblé, muitos outros compositores já haviam versejado sobre o tema, sobretudo o João da Baiana com sua infinidade de sambas e pontos gravados. O que ele fez foi valorizar ainda mais as melodias do Baden Powell com sua poesia, jogando um novo olhar para a temática afro-brasileira. “O homem que diz: dou/ Não dá/ Porque quem dá mesmo/ Não diz”.

Baden, por sua vez, era aluno do maestro Moacir Santos quando entrou em contato com o samba de roda e o candomblé de Salvador. Não poderia ter sido um momento melhor. Moacir já havia gravado seu emblemático disco Coisas, que também faz referências ao universo afro-brasileiro, da macumba ao maracatu, e foi influência decisiva para que Baden começasse a compor seus afro-sambas. Aliás, foi por meio de exercícios modais, durante as aulas do Moacir, que o violonista rabiscou seus primeiros acordes nessa linha.  

Na minha modesta opinião acredito que Baden e Vinícius criaram um novo gênero de samba, reconhecido e admirado por muitos, fizeram escola. Entre os seguidores estão Paulo César Pinheiro, João Nogueira, Carlinhos Vergueiro, Sérgio Santos, Pedro Amorim, Douglas Germano (um dos melhores da nova geração) e qualquer outro compositor que se arrisque nessa labareda, inclusive eu.

 

 

Afro-sambas, samba-afro, bossa negra, podem dar o nome que for, pra mim os compositores de Berimbau fizeram um assentamento de Exú na história da moderna música brasileira.
Aqui vai uma faixa do antológico disco, a única cujo tema da letra não se refere a orixá. Escolhi essa justamente pra vocês se ligarem na pegada da melodia.

 

Abraços e saravá!

 

 

 

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Bobô

Bobô da Cuíca é compositor, ritmista e historiador. Lançou em 2017 seu primeiro livro de contos, “O animal derrengado”.

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