ÁLBUM DE FAMÍLIA

A pedido da equipe do Diário da Tarde, um encontro de Bambas celebra a união entre os sambistas da cidade.

O encontro de compositores de Belo Horizonte, realizado no último domingo de junho, dia 24, no Bairro Esplanada, região Leste da cidade, foi digno de uma reunião de família. Daquela em que todas as gerações se juntam ao pé de uma árvore, para beber, comer e jogar conversa fora, em um fim de semana. O local escolhido foi a casa de Dona Edithe, sogra de Fabinho do Terreiro, responsável pelo banquete de carnes, arroz, farofa, vinagrete e macarronada, regado a cerveja e cachaça. “É aqui que reponho as minhas energias, já que minha sogra é cozinheira de mão cheia”,
elogia o anfitrião. Antes dos “comes e bebes” e das canjas, em um palco improvisado na área externa da casa, não faltaram discursos de exaltação à união do grupo, mesmo com as divergências sendo admitidas publicamente. “Isso aqui é uma família, com todas as virtudes e defeitos. As desavenças são naturais e vão haver em qualquer lugar do mundo”, reconhece Mestre Afonso, que ajudou a reunir uma turma de cerca de 40 sambistas, a pedido da equipe do Diário da Tarde.

Lá estava o que há de mais representativo na cultura do samba da capital, com algumas exceções, como Serginho Beagá, Toninho Geraes, Paizinho, Gatão, Raimundo do Pandeiro, Barrão, entre outros que justificaram suas ausências. Dos que compareceram, destaque para a linha de frente do gênero, representada por Mestre Conga, Kalu, Mauro e Plínio Saraiva, além de Zé do Monte. As gerações seguintes também marcaram presença, casos de Mauro Bainha, Nonato, Geraldo Magnata, Mandruvá, Neno Grande, Bira Favela, Artur Carvalho, Reynan de Oliveira, Ildo Melodia, Lado Raízes, Cabral, Valmir Pretinho, João (Brassamba), Alisson do Banjo, Maurício Brun, Ivo do Pandeiro, PC do Samba, Kenah e Biúla, do Purarmonia. Já as damas do samba foram representadas por Eliane Jansen e Jussara Leão.

O público acostumado a freqüentar as rodas do circuito Centro-Sul da cidade, cujo repertório se concentra nos clássicos da MPB, talvez não saiba que exista uma produção “made in BH”pouco divulgada, mas que garante a sobrevivência de muitas famílias. Uma parcela dos bambas que estiveram no encontro já tem CD ou músicas gravadas, sites, DVD e fazem apresentações pelo interior do estado e pelo Brasil. “Cheguei de Anápolis (GO), ontem, onde fiz um lindo show de divulgação do disco”, conta Reynan de Oliveira, ao se referir ao seu recente álbum, cujo título reflete bem a desesperança das pessoas em relação ao poder instalado em Brasília: Políticos ou bandidos?.

“Até o fim do ano deve sair o meu próximo CD”, garante Nonato, outro sambista na estrada há 25 anos, com registros em LPs e CDs. Além de intérprete e compositor, dirige uma casa de show, Consulado do Samba, na zona Oeste da cidade, onde tem apresentações todas as sextas-feiras. “O Brasil inteiro canta Toninho Geraes (autos, por exemplo, de Mulheres e seu balancê). Exportamos música para outros estados, mas o mineiro não canta os compositores daqui”, lamenta Mauro Bainha, sambista e contador de histórias, no auge de seus 52 anos de “lazer”.

“Estamos plantando uma sementinha a cada dia, e esse encontro é uma prova disso”, completa Geraldo Magnata, de 54, outro experimentado no mundo do samba. Para Neno Grande, que acaba de lançar o CD Segredo Maior, depois de cinco anos de economias para bancar o projeto, a reunião na casa de Fabinho do Terreiro mostra que “a união é fundamental para seguir em frente”. “Somos muito dispersos. Então, precisamos desse gás”, arremata.

Há também aqueles que ainda não gravaram disco, mas que mantêm um fluxo de produção permanente, aproveitado por muitos parceiros. É o caso do carioca, radicado em Belo Horizonte há 20 anos, Arthur Carvalho, autor do irreverente partido-alto Armou chuva, um alerta para a turma do alisamento japonês, a popular chapinha: “Armou chuva, vai cuidar do seu telhado/ quem tem bom cabelo fica, quem não tem toma cuidado/ se molhar o cabelo encolhe ou fica arrepiado…”. “O projeto é sempre manter o grupo (Princípio do Infinito) e gravar um disco, porque trabalhamos para isso”, diz.

Cabral, o pernambucano mais carioca de Minas, realizou junto com Carvalho o projeto Na fonte do Samba, cuja herança foi dar visibilidade aos autores de músicas consagradas pelo público, como Nei Lopes, Noca da Portela, Monarco e Luiz Carlos da Vila, seu amigo e parceiro. “A gente já vinha com essa idéia de fortalecimento do samba e esses encontros proporcionam isso”, avalia. Neste quintal do samba, há espaço também para Ildo Melodia, bamba que há 12 anos se converteu ao Evangelho e hoje canta e compõe sambas em louvor a Deus. “Canto nas igrejas, nas praças. Ontem mesmo estava na Pedreira Prado Lopes pregando o Evangelho”, diz.

Outro que também marcou presença foi Lado Raízes, parceiro da turma. Ele é um dos comandantes da famosa roda de samba do Bar da Zá, no Bairro Boa Vista, que acontece toda segunda-feira, um ponto de encontro dos compositores. “Comecei na época do Curral do Samba, vendo Bira Favela, Barão , Fabinho do Terreiro, Serginho Beagá, Toninho Geraes, Raimundo do Pandeiro, Nonato, essa turma”, lembra Lado, que, embora ainda não tenha um disco, já conta com duas composições próprias veiculadas em rádios. Animados com a reunião, todos saíram do Esplanada com o compromisso de se rever pelo menos uma vez por mês, em um espaço que não falte samba, alegria e confraternização.

“A gente já vinha com essa idéia de fortalecimento do samba e esses encontros proporcionam isso” – Cabral

 

 

 

Visto 2860 vezes Última modificação em Quarta, 23 Maio 2018 18:11
Redação

A equipe Almanaque é composta por: Jornalistas, compositores e pesquisadores do Samba de Minas Gerais

Website.: almanaquedosamba.com.br

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